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Tutinha na Playboy em 2006 - II

Ontem reproduzi aqui a longa entrevista da Playboy com Antonio Augusto Amaral de Carvalho Filho, o Tutinha, feita em 2006, mas não tive tempo de comentar alguns pontos que eu queria comentar.

Leia a entrevista de Tutinha na Playboy

Antes de qualquer coisa, vale uma correção no texto que abre a entrevista. No segundo parágrafo, um trecho fala que "em 1976, quando foi para a Jovem Pan, Tutinha adotou o conceito de FM falada e acabou com o marasmo da programação de sala de espera de dentista". Na entrevista, o próprio Tutinha reconhece que a "rádio Cidade, do Rio de Janeiro, foi a primeira a pôr os locutores". Aliás, ele sempre admitiu que a ideia dos locutores ao vivo não partiu da Jovem Pan: na clássica matéria "A Revolução das FMs", feita pela Veja em 1984, Tutinha fala que "com a entrada da Manchete, com um locutor ao vivo, delineava-se a briga do cinema mudo com o cinema falado", fazendo a Pan optar pelo "cinema falado". A Manchete FM estreou em São Paulo adotando o estilo consagrado pela Cidade no Rio e em São Paulo.

Tutinha fala, já na primeira pergunta, que se não tocar na Jovem Pan, o artista não estoura. Depois diz que Felipe Xavier fechou "a porta da maior rádio do Brasil" e que, portanto, não teria onde trabalhar. Pera lá!

Tem um conceito bem famoso de marketing chamado "Miopia em Marketing", que fala, basicamente, sobre algumas empresas que superestimam sua importância e fecham os olhos para as mudanças no mercado... e quebram a cara! O exemplo clássico é o das ferrovias americanas, que continuaram a investir no transporte ferroviário após o início da produção de automóveis em série. Elas não perceberam que a necessidade das pessoas era de transporte e não de ferrovias, e perderam muito espaço - e dinheiro - por causa disso!

Não é difícil transportar esse exemplo para a Jovem Pan! Com tanta rádio igual, tanto nas qualidades quanto nos defeitos, não dá para acreditar que o público quer ouvir a Jovem Pan por ser a Jovem Pan! Tanto que, de quando essa entrevista foi feita até agora, posso citar de cara duas capitais que a Pan perdeu: João Pessoa e Rio de Janeiro (sendo que no Rio o espaço passou a ser ocupado pela Mix, concorrente direta que já lidera o ranking das rádios "jovens" de São Paulo há algum tempo).

Sobre o jabá, que ele "assume" sem nenhuma culpa, chamando de "acordos comerciais", tem uma contradição. No início da entrevista, ele fala que se a música é ruim, diz ao artista: "Não vou tocar, seu disco é uma porcaria", mas admite que toca música ruim, quando cita bandas como Charlie Brown Jr. e CPM 22, dizendo que é uma pessoa que não tem opinião, que se vê o público da rádio no show de Sandy & Junior pensa em tocar.

Aliás, as contradições são a graça da entrevista! O artista não faz sucesso se não tocar na Jovem Pan. E a Shakira, que ele teve que tocar porque estourou muito?

De qualquer forma, se você não leu a entrevista, recomendo de novo: leia. E comente também!

É revoltante a naturalidade com a qual ele trata do jabá, e como se responsabiliza pelo lixo que Jovem Pan e similares empurram goela abaixo do seu público, sem ver nisso grande problema? Sim (pelo menos eu acho). Mas como a vida real não é uma novela da Televisa, é sempre bom lembrar que Tutinha é o cara que fala abertamente disso, não o único que faz isso!

O buraco é mais embaixo. E você também vai ser parte da "massa manipulada" pela Indústria Cultural (se já não é). Ruim não é consumir os produtos dessa indústria. É consmumir só isso e sem ter consciência disso.

P.S.: Tenho algumas coisas em vinil e em CD das "7 Melhores da Jovem Pan", todos da Paradoxx. Ouvi muito Whigfield, Nicki French, Newton, Undercover, Fun Factory e mais um monte de "One Hit Wonders" da Paradoxx - e ainda ouço. E nem ligo... também ouço a Tropical FM!

Ah, e estou vendo "A Fazenda" enquanto escrevo isso! =)

LEIA TAMBÉM
Rádio Base: Músico revela pressões e ingerência de gravadora para música tocar na rádio

Comentários

  1. Anderson,

    Achei o Tutinha,um ser arrogante, prepotente e grosso, mas sincero.Apesar de ser uma marca forte e tradicional, a Jovem Pan 2 FM não é líder de audiência na Grande SP(maior mercado do país) e está ausente no segundo maior(Grande Rio), ou seja, esse influência citada pelo Tutinha, não existe, sem contar na forte concorrência da Mix.

    Aqui em João Pessoa, a Jovem Pan chegou em Setembro de 1994 na 101,7 FM, em substituição à Rádio Cidade, nunca foi tão forte, em 2007, foi substituida por uma rádio popular(101 FM), diga-se de passagem que a 101 FM pertence à TV Cabo Branco, afiliada da Globo.

    João Pessoa não é um mercado despresível, tem 700 mil habitantes e área metropolitana de 1,3 mihão de habitantes, é um mercado de porte considerável, a Jovem pan tenta voltar pra cá, através do Sistema Arapuan, perto da antiga frequância(101,1), existe um movimento no Orkut

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