Duas formas de ver Michael Jackson e a mídia

A morte de Michael Jackson continua repercutindo na mídia. A guarda dos filhos, a herança, seu estado de saúde nos dias que antecederam a parada cardíaca, as imagens do último ensaio e seu funeral público foram destaques diários em todo lugar. Mas a poeira está baixando, e baixada a poeira - ou passada a comoção causada pelo impacto da notícia, onde a mídia normalmente se restringe à fórmula 'hard news + biografia' -, a discussão tende a se aprofundar. Os dois exemplos que deixo a seguir ilustram isso.

Na última quinta-feira, o publicitário Nelson Cadena publicou em sua coluna no Correio da Bahia (reproduzida no Almanaque da Comunicação) um artigo onde tratou Michael Jackson como um personagem de si mesmo, e expôs um pouco sobre as polêmicas e fragilidades do cantor. O texto afirma que Michael já tinha morrido há anos como artista.

"Michael Jackson deixou de respirar em 25 de junho, mas já era morto para o show-businness, desde meados da década de 90. Passara mais de quinze anos fora dos palcos e pelo menos oito longe de um estúdio de gravação. (...) não mais existia como artista. Administrava o seu próprio personagem, a representação da "commedia dell' arte" veneziana: um molde que deveria lhe dar a feição de uma máscara de porcelana, mas que para sua desventura acabou sendo de gesso. Porcelana é barro cozido e misturado e se desfaz em pedaços inteiros quando quebra; o gesso vai sendo roído e vira pó. O menino da "Terra do Nunca", tarde demais, descobrira que toda escolha implica em perdas.

Michael Jackson queria e precisava ser artista de novo e nesse desejo imaginou congelar o tempo, como na câmara de oxigênio que um dia o fez sonhar com a eterna juventude. Imaginava viver 150 anos. Preparava-se para retornar aos palcos, mas não mais tinha fôlego para tanto.

(...)segundo informa a mídia, administrava uma dívida de 500 milhões de dólares; parte dela seria saldada com a turnê londrina de 50 shows agendada para este mês.

[Mike] Tyson e [Michael] Jackson foram meninos prodígios revelados para o esporte e o show-businnes precocemente. O primeiro oriundo do Brooklin, o segundo do Harlem, os dois bairros negros de Nova Iorque. Ambos lidaram com a rejeição, o racismo e a pobreza e já adultos transformaram-se em ídolos populares, remunerados com milhões e milhões de dólares. A imprensa exaltou os seus talentos. Mas também os seus conflitos que valeram ao pugilista alguns anos atrás das grades; ao artista vários processos por pedofilia, um deles resolvido mediante acordo financeiro com desembolso de mais de 20 milhões de dólares; o outro julgado a seu favor após longa exposição negativa na mídia."

No mesmo dia, durante a Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), o jornalista e escritor norte-americano Gay Talese afirmou que foi a imprensa quem matou Michael Jackson: "A autópsia vai apontar ataque cardíaco ou qualquer outra versão oficial, mas ele vinha morrendo aos poucos há cinco anos, graças à humilhação imposta pelo desserviço de alguns jornalistas. Aqueles que noticiaram como verdadeiras as declarações de pessoas que teriam sido abusadas por Michael Jackson". O jornalista questionou a consistência das acusações de pedofilia e apontou a incongruência entre a forma como a morte do artista foi anunciada e o tratamento que ele vinha recebendo na mídia: "Simplesmente dizer que ele 'abusou' de alguém é pouco evidente. Lamento por Michael Jackson. Com a morte, foi transformado em mártir. O mesmo homem acusado, semanas antes, de perversão. Por isso, não me emocionei nem um pouco com o noticiário lacrimoso sobre sua morte."

Michael Jackson, um dos precursores do videoclipe e o maior vendedor da indústria fonográfica em todos os tempos, pode estimular, depois de morto, discussões sobre os limites e abusos da mídia no jornalismo de entretenimento. Concordo com Gay Talese, e acredito que MJ seja o exemplo mais forte de como a mídia pode ser prejudicial quando extrapola os limites do bom senso na invasão, nas especulações e no "pegar para Cristo" (principalmente quando se fala de uma pessoa sem condições psicológicas para segurar o tranco de tanta exposição - e aí concordo um pouco com Nelson Cadena).

SAIBA MAIS
Almanaque da Comunicação: Michael Jackson: A máscara era de gesso
Estadao.com.br: Talese fala na Flip que imprensa matou Machael Jackson

Comentários

  1. Até Liz Taylor em seu twitter comentou sobre a morte do seu amigo, Michael Jackson, a estrela de Cleópatra, Assim caminha a humanidade(e com razão!) disse que o velório era um circo (e eu concordo plenamente)

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