Pular para o conteúdo principal

Jornal do Brasil completa 118 anos entre o saudosismo e a esperança

Do Comunique-se.

O Jornal do Brasil viveu momentos áureos e, por problemas financeiros, entrou numa crise sem precedentes. Foi então vendido para Nelson Tanure, em 2001. Quem trabalhou no JB nas décadas de 50, 60 e 70 deve lembrar com saudades de um diário que fez história no jornalismo brasileiro. Fundado em 1891, completou 118 anos no dia 09/04.

A mudança para as mãos de Tanure é condenada por uns, mas defendida por outros. Para Fritz Utzeri, que trabalhou no JB entre 1968 e 2001, ocupando, entre outros cargos, o de diretor de redação, o atual jornal está longe de ser o que foi. "Não há a menor possibilidade de compararmos o antigo JB com o atual. O título é apenas uma mera coincidência, embora grandes figuras ainda escrevam para o jornal e trabalhem lá, como Evandro Teixeira [editor de Fotografia]. Eu diria que hoje trata-se de um estelionato contra o leitor".

Já Wilson Figueiredo, que trabalhou no diário de 1957 a 2005, cuidando principalmente da área editorial, vê a compra com outros olhos. "O Tanure impediu que um jornal de mais de cem anos morresse. Foi ótimo ter alguém disposto a comprar o jornal. E o modelo que ele lançou foi pioneiro. Já há outros jornais seguindo esse novo formato [algo próximo ao
berliner], como O Dia. É uma forma de reduzir custos. Outra reforma que o JB fez recentemente está na medida dos conceitos do empresariado do setor. Você foge da tirania do jornalismo clássico, dá mais espaço a comentários, opinião, do que notícia. São mais de 50 pessoas especializadas nos mais diversos assuntos. Se o governo muda a política cambial, amanhã tem algum especialista para tratar desse tema. Acho que o jornal é melhor do que era no começo, quando o Tanure comprou. E não acho que está tudo perdido. Acho que o jornal está se reencontrando".

Os problemas
"Quando o JB começou a dar certo, teve um precedente importante: era o jornal das cozinheiras. Ou seja, sobrevivia graças aos classificados, principalmente de quem procurava empregadas domésticas. Até que o Conde [Pereira Carneiro] morreu e a Condessa se convenceu de que era possível que o JB passasse por uma reforma [conduzida por Amilcar de Castro]. Nos anos 50 ela pensou cautelosamente porque a receita dos anúncios sustentava o jornal. Foi tudo muito bem planejado. Foram mais de dois anos experimentando, rearrumando aqui e ali até fazer a reforma", recorda Figueiredo. O retorno financeiro dos investimentos, conta ele, demorou dois anos, mas como os classificados sustentavam o jornal, isso não foi problema.

Uma das qualidades do JB lembrada tanto por Figueiredo como por Fritz, era a liberdade para se trabalhar. "O JB era um jornal aberto, não tinha compromisso político", diz Figueiredo.

Fritz lembra que os jornalistas do JB tinham "orgulho de vestir a camisa da empresa". Ele diz que começou no jornal quando o JB vivia sua melhor fase. "Só a reportagem e a editoria Geral tinham cerca de 60 pessoas. Hoje duvido que o JB inteiro tenha isso de repórteres. Tínhamos correspondentes no mundo inteiro, até no Japão."

Mas como já destacou Otto Lara Resende, um grave problema dos jornais brasileiros foi investir em suas sedes. Ele dizia que jornal que faz edifício está cavando um túmulo. E foi o que aconteceu com o JB. Na década de 60, o JB comprou um terreno para construir o que era conhecido como "elefante branco". Financiou a construção do prédio e sua direção não foi cautelosa na hora de liquidar a dívida. "Deixaram a dívida ser tomada pela inflação", lamenta Figueiredo. No início dos anos 70, deixou o endereço na Av. Rio Branco, no Centro do Rio, para ocupar o prédio na Av. Brasil.

"Naquela época tinha até arquiteto residente cuidando da obra. Para colar uma coisa na parede, a gente tinha que pedir autorização. Eu tinha uma amiga que cobria Turismo que tinha uma lâmina de fórmica, cor de abóbora vivo, bem na frente dela. Não dava pra olhar para aquela parede, eu ficaria com dor de cabeça. Não podia pendurar coisas. A irracionalidade e má administração levam isso", analisa Fritz.

A guerra dos classificados colaborou para os problemas financeiros do JB.
O Globo passou a investir tanto nos anúncios que ganhou espaço.

Manuel Francisco do Nascimento Britto, genro do Conde e Condessa Pereira Carneiro, que assumiu o comando do JB com o afastamento da sogra, se viu em apuros financeiros. Os salários passaram a atrasar e a qualidade do jornal a cair. Em 2001, Nelson Tanure fez uma proposta de arrendamento do JB.

Hoje, o jornal faz parte da Companhia Brasileira Multimídia (CBM), composta também pela
Gazeta Mercantil, outra marca arrendada por Nelson Tanure.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Relembrando a Líder FM de São Paulo

Em janeiro deste ano, publiquei aqui e no Tele História um post sobre o curto período em que a Líder FM, emissora popular da Grande São Paulo de grande audiência nos anos 90, adotou o slogam "Cheia de Charme" e passou a se dedicar à Black Music. No final do post, pedia para quem tivesse mais informações sobre esse período enviasse comentários, para que todo mundo que lê o blog e a coluna do Tele História - inclusive eu - pudesse resgatar um pouco da história dessa simpática emissora que acabou caindo um pouco no esquecimento.

De lá pra cá, recebi comentários de pessoas relembrando a Líder FM dessa e de outras fases. Alguns são tão bons que me deixaram, já na época, com vontade de escrever um novo post só para que eles ficassem mais "visíveis".

Nesta terça-feira, o Edmauro Novais, que teve participação essencial no primeiro post, enviou imagem da capa de outro CD da rádio na fase Black, retirada de um blog que disponibiliza a playlist e o link para download do CD. Foi…

Um pouco da história da Rádio Tupi AM (SP)

Muita gente reclama da "falta de memória" da TV, não só pelo descaso das emissoras que apagavam seus arquivos sem a menor culpa, mas também pela dificuldade em encontrar informações consistentes e confiáveis sobre a história da televisão. Quem reclama tem razão, mas essa falta de memória nem se compara com a escassez de registros sobre a história do rádio!

Tive que procurar, para um trabalho, a história da Tupi AM de São Paulo, e descobri que não existe nenhum lugar que traga essas informações. Para se ter uma ideia, não consegui encontrar nem o ano em que a Tupi AM de Paulo Abreu foi inaugurada!

Encontrei alguns dados em diversos endereços na Internet - faço questão de deixar os links ao longo do texto - que, aliados ao pouco que lembrava, me ajudaram na montagem do quebra-cabeças da trajetória (ou das trajetórias) da Tupi.

O resultado não ficou tão completo quanto esperava, mas deixo aqui o que encontrei, primeiro por não ter visto essa história resumida em nenhum lugar, e de…

Especial: As vinhetas de abertura e encerramento da programação na TV

Antes da TV paga ou da multiplicação de televendas e telepastores, era padrão as emissoras de TV não permanecerem no ar 24 horas por dia. No máximo, a Globo "virava" as noites de sexta e sábado com o lendário "Corujão"; as demais - incluindo a Globo em outros dias - só funcionavam de madrugada em ocasiões esporádicas e especiais.

Por isso, quase todas se preocupavam em criar vinhetas específicas para a chegada e despedida diárias. E, diferente do que se esperaria de vinhetas exibidas duas vezes por dia nos horários mais periféricos da grade, muitas delas foram marcantes na história das emissoras e são lembradas até hoje.

Preparei uma lista com algumas das mais famosas. Os vídeos são antigos e estão no YouTube há muito tempo, mas são alguns dos meus favoritos - e imagino que não sejam só meus.


GLOBO

Nos primeiros anos de Hans Donner, uma sequência de formas tridimensionais ilustrava a mensagem de encerramento:


Na década de 1980, a mensagem foi substituída pela apresentaç…