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Especial: Era uma vez a TVJB (2ª Parte)

Na semana passada comecei a falar sobre a TVJB, desde o início da parceria CNT-CBM até a estréia da TV. Continuo a história nesta semana, com foco nos cinco meses em que a programação produzida pela CBM esteve no ar.

PROGRAMAÇÃO
A TVJB foi lançada trazendo, basicamente, dois destaques: a volta de Bóris Casoy à televisão, como âncora do "Telejornal do Brasil", e o programa do deputado federal e estilista Clodovil Hernandes, prometido como um reality show que mostraria os bastidores da Câmara federal. A CBM também apostava em Augusto Nunes e Léo Almeida, mas os dois nomes tinham menos apelo ao grande público que os dois primeiros.

No dia de estréia da TV, a capa do Caderno B do Jornal do Brasil (reprodução ao lado) apresentou a programação e falou das otimistas expectativas do grupo para a nova mídia. A proposta, segundo a reportagem de Rose Esquenazi, era de "fugir da audiência fácil e da programação de baixo nível", através do "jornalismo crítico e atrações com o requinte da TV por assinatura". Daniel Barbara, então presidente da CBM, disse à jornalista que todos os profissionais envolvidos na implantação da emissora a consideravam "o projeto de suas vidas" e que o objetivo do grupo era "fugir da tentação de fazer uma TV de audiência fácil e programação chula".

A equipe citada por Barbara contava com profissionais experientes e reconhecidos. O cineasta e diretor de TV Guga de Oliveira, irmão de Boni, foi contratado como consultor do canal. Para a direção de jornalismo foi convidado Dácio Nitrini, que acompanhava Bóris Casoy desde os tempos do SBT. A direção de produção ficou a cargo do professor e engenheiro José Roberto Sanseverino (diretor de produção da Globo nas minisséries "Memorial de Maria Moura" e "Engraçadinha") e a direção artística ficou com Pedro Paulo Carneiro, que ja havia trabalhado na Globo, Band, TVE e BBC.

Na frente das câmeras, além dos carros-chefe Bóris Casoy e Clodovil, estavam nomes como Luiza Sarmento, no musical "+ Pop", e a equipe do "Rock Bola", da Oi FM ("Loucos Por Bola").

A programação da TVJB começou ocupando o horário das 18h à meia-noite na CNT. Os demais espaços continuaram com os habituais televendas e programas religiosos, mas com a promessa de que seriam substituídos por atrações próprias ao longo do tempo. A expectativa era que o conteúdo próprio dobrasse em seis meses.

Veja como era a programação nas primeiras semanas da TVJB:

Fonte: Folha de S. Paulo. Clique na imagem para ampliar.

"Longe de ser uma grade pétrea, fechada, o objetivo é acrescentar produções independentes, criar espaço para novos talentos e eliminar o que não for de agrado do público" - dizia o texto de Rose Esquenazi para o JB de 17/04/07. Mas o aparente dinamismo teve mais cara de instabilidade: em seu curto tempo de vida, a programação da TVJB sofreu alterações em vários momentos. No início de setembro, a grade já não tinha quase nada em comum com a da estréia.

Última grade da TVJB, modificada poucos dias antes do fim das transmissões na CNT. Fonte: Folha de S. Paulo. Clique para ampliar.

REPERCUSSÃO E EXTINÇÃO
Não parecia que a TVJB sairia do ar tão rapidamente. Apesar de alguns incidentes polêmicos como a saída do "Loucos Por Bola" por falta de pagamento e a demissão de Clodovil por conta de um AVC que o impediu de gravar seu programa, surgiam novidades na programação e a TV era amplamente promovida no Jornal do Brasil - o que demonstrava, juntamente com os esforços em propaganda, interesse da CBM em continuar a investir no projeto.

Anúncios da TVJB vinculados no Jornal do Brasil. Clique para ampliar.

O final foi repentino: em 31/08, Flávio Ricco comentou em sua coluna Canal 1 que a continuidade da rede estaria comprometida por desentendimentos entre Nelson Tanure e a família Martinez. Segundo o jornalista, os donos da CNT alegavam atraso de dois meses no pagamento do arrendamento e se recusavam a aceitar uma proposta conciliatória de Tanure que previa o pagamento de R$ 1 milhão de reais por mês mediante a prorrogação da dívida do grupo, que chegava a R$ 6 milhões. Na ocasião, o prédio que seria a sede da CBM na Avenida Paulista já havia sido devolvido.

Em 05/09, uma matéria do Comunique-se especulou sobre a possibilidade daquele ser o último dia da TVJB, mas disse que a rotina na empresa não tinha sido alterada, "apesar do clima de incerteza e dos sinais de crise". A emissora não saiu do ar naquele dia, mas todos os veículos especializados noticiaram que seu futuro dependia do resultado das conversas entre Tanure e os Martinez. Daniel Barbara garantiu que a TV continuaria no ar e que a negociação entre as partes era normal.

No dia 06/09 matéria do Blue Bus informou que estava prevista a divulgação de um comunicado entre CBM e CNT sobre as negociações que estavam realizando, mas a CNT já havia cortado o sinal da TVJB: às 18h, o que se via na rede paranaense eram reprises de programas dos anos 90, como "Vida de Artista", "Pista Dupla" e "Noite de Gala".

A TVJB voltou ao ar na semana seguinte pelos canais da Rede Brasil de Televisão (RBTV) e publicou um comunicado dizendo que a mudança era "outro passo importante" para a emissora (reprodução ao lado). O comunicado não era muito convincente.

A programação da TVJB ficou na Rede Brasil apenas uma semana. Na noite de 17/09, a CBM anunciou a suspensão das operações da TV através de um comunicado, menos convincente ainda, alegando que o fim das transmissões teriam ocorrido por causa da "qualidade técnica da rede de transmissão [CNT]".

No dia seguinte, Bóris Casoy disse ao Portal Imprensa que os funcionários não tinham nenhuma informação sobre o que estava acontecendo na TV. O jornalista também informou que havia sido convidado a continuar na empresa, que pretendia "partir para outro projeto, ainda sem data certa, mas também voltado à televisão".

O comunicado sobre a suspensão das operações da TVJB afirmava que a CBM mantinha em seus planos "a posição de reativá-la oportunamente" e que procurava outras alternativas para que pudesse "recontratar as equipes de jornalismo, técnica e administrativa." No final do ano uma nota na coluna de Daniel Castro cogitou a volta da TVJB, dizendo que a CBM havia contratado "uma consultoria para fazer um levantamento de todas as emissoras de TV que estão à venda no país" com a finalidade de relançar a TV através de uma rede própria, mas nunca mais se tocou no assunto.

É difícil entender o fim da TVJB. Pedro Paulo Carneiro disse em agosto desse ano que uma emissora de TV costuma levar pelo menos 5 anos para recuperar seu investimento inicial e que a TVJB recuperaria em menos de um ano, se continuasse no ar. Quando Daniel Barbara saiu da CBM, disse que havia sido contratado para "tocar um plano de crescimento que acabou não acontecendo, porque o acionista mudou de idéia". Uma pena.

No final, um dos legados da TVJB foi o título de "Mico do ano" no jornal O Globo. Confira o texto de Lilian Fernandes e Simone Mousse:

O MICO DO ANO

Foi, provavelmente, a emissora brasileira com vida mais curta. Começou suas transmissões no dia 17 de abril, pela CNT, e terminou no dia 17 de setembro, pela Rede Brasil. A TVJB, na sua curtíssima existência, desmentiu a máxima de que tudo que é bom dura pouco. Primou por uma grade confusa - as mudanças eram constantes - e por som e imagem inferiores às suas concorrentes. A programação ia de 18h à meia-noite e entre as atrações estavam a fraca novela "Coração navegador", o "Telejornal Brasil", de Boris Casoy, o show de variedades "Ney e Nani", com Ney Gonçalves Dias e Nani Venâncio, um talk show com Augusto Nunes e um programa do deputado, costureiro e apresentador Clodovil, entre outros. A TVJB passou para a Rede Brasil, em UHF, no dia 10 de setembro, sem que as razões do fim do acordo com a CNT, que reassumiu todos os horários do canal, fossem divulgadas. Uma semana depois, a TVJB saiu definitivamente do ar.

Veja a chamada de estréia do "Telejornal do Brasil" e a abertura do programa "Na Rua", duas das maiores apostas do canal.

Chamada do "Telejornal do Brasil"


Abertura do "Na Rua"


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